sábado, 14 de fevereiro de 2009

Uma antologia feita no aqui e no agora




Uma Antologia feita no aqui e no agora.

Uma retrospectiva vivida para além de si própria, no momento, no presente.

Foi este o espírito da inauguração desta mostra de artes plásticas e da apresentação do livro “Sonha com Lucy” de Tania Estrada Morales, com ilustrações da minha autoria, realizadas num esforço concertado e suportado também pelo grupo Aka Arte/ num dia perfeito.

As primeiras palavras deste livro foram contadas na voz das crianças presentes, numa pequena leitura que marcou simbolicamente a apresentação desta narrativa que conta a história de uma menina turca, inteligente, sensível, curiosa e generosa, representativa de todas as crianças da nossa geração, chamando ainda a atenção para o nosso papel na sua educação, saúde, liberdade e identidade.

Antologia foi assim o espaço para falar do papel da arte no quotidiano e na contemporaneidade, nos percursos que cada autor pode empreender em áreas como a literatura, a pedagogia e até economia, tudo isto sublinhado pelo otimismo e empreendedorismo destas doces e jovens vozes que nos deliciaram ao dar vida à palavra escrita que ali se lançava.

Deixo aqui um sentido agradecimento ao Marias do Açúcar que nos acolheu entre os seus doces, talentos e carisma, que emprestou a esta noite de verão de S. Martinho a magia das experiências inesquecíveis.


Nuno Quaresma

Novembro de 2015













ANTOLOGIA



























Marias do Açúcar é um lugar intimista, jovem, dinâmico, empenhado em transformar pequenas e grandes ideias em açúcar, e o repto foi irresistível.

Expor uma seleção, pequena mas de elevada qualidade, num local assim emblemático é um verdadeiro desafio e ANTOLOGIA foi a síntese escolhida para dialogar com os clientes e visitantes, num apelo ousado à razão, sensibilidade, gosto e sentidos.

ANTOLOGIA é uma história contada na primeira pessoa e versa sobre a última década, as suas mudanças e convulsões, sintetizada ora em obras críticas ora no desiderato possível, das emoções sentidas, numa iconografia com recurso à representação figurativa e tónica nos valores do Humanismo.

São seis peças reunidas não em forma de epístola fechada, mas antes como missiva aberta em que cada um dos espectadores pode convocar novas narrativas ou rejubilar em novas e inesperadas interpretações.

Temas como a Guerra, o Valor da Vida, a Coragem, o Belo, o Sonho, a Civilização, a Crise ou a Austeridade, são todas mote e matéria-prima para representações ora confusas, ora cristalinas, em técnicas como o acrílico sobre tela, óleo sobre madeira ou giz e pastel sobre papel.

Mais do que uma proposta estética, são um postulado ético, sobre a nossa comum e humana liberdade, arbítrio e responsabilidade.

Se pudessem ser interpretadas como hino, seriam um manifesto potente e gutural sobre a Ágape, Empatia e Tolerância dos Homens, na escala do Homem, aqui excecionalmente, e porque a vida é doce, rodeados de sedutores e deliciosos cup cakes.


Se queres saber mais sobre o evento visita:


Salvator Mundi



Salvator Mundi é o nome dado originalmente a uma emblemática pintura de Cristo como “Salvador do Mundo”, que foi recentemente atribuída a Leonardo da Vinci.

Inspirado por esta descoberta e no contexto do trabalho que faço como ilustrador ao serviço da Fundação Salesianos decidi empreender uma pequena homenagem aos dois Mestres: o do Amor – Jesus Cristo; e o da Pintura – Leonardo.

Pintei esta peça-tributo com ampla liberdade interpretativa e simbólica em relação à obra que a inspira, mas fiz um esforço sério para fazer corresponder a composição iconográfica à métrica da imagem patente no Sudário de Turim.


Sobre o Sudário de Turim, também conhecido como Santo Sudário, importa saber que  é uma peça de linho que mostra a imagem de um homem que aparentemente sofreu traumatismos físicos de maneira consistente com a crucificação. O Sudário está guardado na  Catedral de Turim, na Itália, desde o século XIV. Pertenceu desde 1357 à casa de Saboia que em 1983 o doou ao  Vaticano. A peça é raramente exibida em público, a última exposição foi no ano 2010 quando atraiu mais de 50 mil fiéis.

O Sudário é um dos acheiropoieta (grego bizantino: "não feito pelas mãos") e vários cristãos acreditam que seja o tecido que cobriu o corpo de Jesus Cristo após sua morte. A imagem no manto é na realidade muito mais nítida na impressão branca e negra do negativo fotográfico que na sua coloração natural. A imagem do negativo fotográfico do manto foi vista pela primeira vez na noite de 28 de maio de 1898 através da chapa inversa feita pelo fotógrafo amador Secondo Pia que recebeu a permissão para fotografá-lo durante a sua exibição na Catedral de Turim.

A origem da peça tem sido objeto de grande polémica, porém existe consenso sobre pelo menos sete aspetos:
  • 1.       Havia sangue humano no sudário;
  • 2.       As gotículas de tinta ocre notadas na relíquia seriam resultado de contaminação;
  • 3.       A habilidade e equipamentos necessários para gerar uma falsificação daquela natureza seriam incompatíveis com o período da Idade Média, época em que o sudário apareceu e foi guardado;
  • 4.       As marcas do Sudário são um duplo negativo fotográfico do corpo inteiro de um homem. Existe a imagem de frente e de dorso;
  • 5.       A figura do Sudário, ao contrário de outras figuras bidimensionais testadas até então, contém dados tridimensionais;
  • 6.       Não existe ainda explicação científica de como as imagens do Sudário foram feitas;
  • 7.       O Sudário apresenta marcas compatíveis com a descrição da crucificação nos Evangelhos.



A obra que compus não reclama naturalmente a pretensão da “Vera Icona” (verdadeira imagem) de Jesus, mas nele procuro representar Cristo no seu Carisma e Universalidade que senti representada na obra de Leonardo.

Sobre esta obra executada pelas mãos de Leonardo importa também saber que apesar de conhecida e dada como perdida, foi recentemente redescoberta, restaurada, autenticada e exibida no ano de 2011.

A pintura mostra Cristo, em trajes renascentistas, a dar uma bênção com a mão direita levantada e dedos cruzados, e a segurar uma esfera de cristal na mão esquerda.

Este sinal da mão direita tem fundamento na história da Igreja Cristã. O sinal é encontrado nos mais antigos exemplos do “Pantocrator”, ícone atribuído à figura do Cristo-Deus, como aquele que domina todas as coisas, sejam elas terrestres ou celestes. A palavra “Pantocrator” deriva do grego e significa “aquele que tudo governa”, “todo-poderoso”, “omnipotente”.

Esta mão direita de Cristo, que desponta sob o seu manto, está erguida fazendo o gesto de bênção «à maneira grega» em que o posicionamento dos dedos forma, em sinal, as letras IC XC que representam “Jesus Cristo” em grego.

Leonardo da Vinci pintou a obra, em França, por encomenda de Luís XII entre 1506 e 1513 e o trabalho foi recentemente autenticado, reconstituindo-se o circuito de posse da obra desde Charles I da Inglaterra que a tinha registada na sua coleção de arte em 1649, até ser leiloada pelo filho do Duque de Buckingham e Normanby em 1763. Foi posteriormente comprada por um colecionador britânico, Francis Cook, visconde de Monserrate, altura em que a pintura foi danificada em tentativas de restauração. Os descendentes de Cook venderam a peça em leilão em 1958 e em 2005, a pintura foi adquirida por um consórcio de negociantes de arte que incluía Robert Simon, especialista em antigos mestres. No início a obra também foi fortemente contestada por parecer uma cópia, descrita como "um naufrágio, escuro e sombrio" mas após o restauro foi autenticada como uma pintura de Leonardo e exibida pela National Gallery de Londres durante a exposição “Leonardo da Vinci: pintor na Corte de Milão” entre 9 de novembro de 2011 e 5 de Fevereiro de 2012.

Em 2013, a pintura foi vendida ao colecionador russo Dmitry Rybolovlev por 58,2 milhões de euros.



Este meu Salvatore Mundi é, contudo, um tributo simples, humilde, mas bem-intencionado ao apelo que a Vida, Mensagem, Morte e Ressurreição de Cristo inspira em mim e nas pessoas que conheço, assim como na genialidade da obra de Leonardo da Vinci que continua a insuflar de fascínio a minha imaginação e criatividade.

Esta recensão, que tem a mesma data da assinatura do quadro, serve para partilhar com o leitor/ espectador o percurso das minhas pesquisas e reflexões que nortearam o processo criativo até à imagem e objeto estético que hoje dou como finalizado.

Nuno Quaresma
14 de Outubro de 2015


Fontes:

The Shroud Of Turin and The 3D Face of Jesus Christ:
BBC Shroud of Turin New Evidences:






Sonha com Lucy




SONHA COM LUCY

"Imaginemos uma janela aberta e a imensidão de uma paisagem...
A leitura é também essa janela para o espírito.
Um mundo de informação e fantasia que está ao alcance e que nos aproxima.

A leitura permite apresentar à criança um mundo que não conhece, que muitas das vezes ainda nem viu. Um mundo que ela vai reconhecer e identificar-se.

“Sonha com Lucy” retrata uma menina de nove anos, sonhadora, com sentimentos muito bonitos e profundos. Faz um apelo à importância para a educação escolar das crianças.
Mostra-nos o poder da partilha de ideias, dos laços afectivos, do amor da família e o conceito da cooperação.

Defende a importância da escola e o combate ao trabalho infantil.

«Nesta obra as crianças viajam pela geografia e pela história, para abrir o espírito e os seus horizontes a outras culturas, de modo a que a tolerância ganhe forma, motivando-as e estimulando-as a abrir novos caminhos para a compreensão da leitura e também da própria vida» 
Tania Estrada Morales

Ilustrações de Nuno Quaresma

Link para ter este Livro








sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Je suis Charlie


 
 
 
 
A ligação nunca foi premeditada.
Tenho pintado muito o tema, a Liberdade, mas nesta minha procura, através da estética e da arte, pelo significado e implicações do conceito, nunca fiquei tão aflitivamente consciente e próximo da realidade como nestes dias em que penso que todos nos sentimos um pouco como Charlie e tão convictamente afirmámos que somos, acima de todos os medos e inquietações, Charlie.
Somos esse Charlie frágil, com defeitos, incoerências, mas livre, ativo, irreverente, não em causa própria, mas para a causa pública, res publica.
Esta semana andei assim, sem dar conta, a pintar esta obra imperfeita.
Uma mulher caminha, com uma colher de sobremesa, para um paraíso terreno, o mundo em forma de pão-de-ló, coberto de massapão doce, já meio comido. É metáfora do nosso Mundo, com os recursos meio esgotados, ao serviço do desenvolvimento e da Civilização.
Esta mulher monumental, Deusa, nua (como a Verdade), imponente, determinada, orgulhosa, caminha (como poderia ela não o fazer) para lhe dar mais uma valente colherada, sabendo contudo que a cada colherada, esse paraíso também desaparece, assim como a miragem da Felicidade, pelo menos aquela material que quase todos ambicionamos.
Enquanto pintava e ouvia as primeiras notícias do atentado na redação do Charlie Hebdo, tremi de medo e pensei: “Epá, tenho de ter cuidado com o que pinto. A nudez, o humor e a liberdade que uso nas minhas pinturas coloca-me em risco e agora, Pai de Filhos, é melhor não melindrar ninguém. O perigo pode bem morar ao lado, junto á nossa porta.”
Não!Não!Não!
Como é fácil sentirmo-nos esmagados por estes acontecimentos e por esta ideologia do terror e da pequenez do pensamento, ao ponto de nos sentirmos manietados.
Já recomposto, olho agora para a marcha na Praça da República em Paris e sinto, como há muito não sentia, uma tranquilidade inexplicável e um orgulho sem fim nesta Europa, contemporânea, nesta construção civilizacional ocidental de que tão inexoravelmente sou filho e fruto.
Afinal, também nós já tivemos na história da construção europeia, inquisições, decapitações, tortura, escravatura, genocídios e lutas fratricidas.
O nosso crescimento civilizacional já passou por crimes incomensuráveis e por limitações e manipulações abomináveis da liberdade e dignidade da Pessoa Humana e das Sociedades.
Mas hoje, por tudo isto e para além de tudo isto, crescemos, evoluímos e nas ruas de Paris caminham dois milhões, em sintonia como muitos biliões de mais, sem dúvidas ou hesitações, de cabeça erguida, muçulmanos, judeus, cristãos, ateus, sics, hindus,budistas, proletários, capitalistas, líderes, aliados e adversários pela Liberdade, Tolerância e Fraternidade.
Em anos de austeridade, acordo como esta mulher madura, livre, civilização imperfeita, “Marianne”, sem soluções definitivas, mas determinada, de olhos postos no futuro, mesmo que incerto, e com o passado resolvido e apaziguado, não como trilho de terra queimada, antes História que alumia.
Obrigado pela coragem Charlie ! Viva a Liberdade!